Fez domingo 10 anos que chegou ao Benfica. A "A Bola" fez questão de o lembrar com destaque de última página. Trazia consigo um importante cartão de visita - ter tornado um clube dos subúrbios de Lisboa num caso de sucesso na 1ª divisão, o Alverca.
Poucos teriam aceite trocar um clube em ascensão, com grande potencial, por um gigante falido, nas bocas do Mundo pelos piores motivos. Isto pode parecer uma heresia, mas é disso que estamos a falar. O Benfica era, na altura, um poço sem fundo.
Manuel Vilarinho aceitou ser candidato por vaidade pessoal. Não arriscou muito e cumpriu o sonho de uma vida. Você, não. De origens humildes, tendo subido na vida a pulso, arriscou muito ao meter-se no vulcão que era então o Benfica.
Deixe-me que lhe diga que ouvi pessoalmente Manuel Vilarinho, no antigo gabinete da Luz, dizer que não conseguia desatar os nós que todos os dias lhe apareciam. É claro que quando dizem que você foi tratar do futebol, estão ser redutores. Você foi "tratar" do clube e o futebol, digo-o sem tibiezas, foi talvez aquilo com que menos se preocupou. E fez bem. Na verdade, as prioridades eram outras.
Ocupado com outros "nós" e com Vilarinho a meter água no futebol, com o despedimento de Mourinho à cabeça das infantilidades, para não lhes chamar outra coisa, a "gestão desportiva" foi ruinosa. Mas a gestão do clube foi um sucesso.
Até que, estabilizado o clube, você se virou para o futebol. E, diga-se em abono da verdade, acertou em cheio: foi buscar um trio de sucesso Simão + Trapattoni + Veiga, a ordem é arbitrária (e claro, já tinha trazido de Alverca essa jóia da coroa que era o Pedro Mantorras).
O sucesso desportivo apareceu num ápice. Depois, uma série de peripécias, entre as quais os problemas em que se viu envolvido José Veiga e a insólita decisão de dispensar Fernando Santos à 1ª jornada, fizeram o "projecto desportivo" recuar.
Este foi, talvez, o ponto negro do seu consulado. Do qual se demorou a recompor e desde aí a ânsia legítima e justa em ver reconhecido dentro das quatro linhas todo o trabalho que fez em reerguer o clube das cinzas tem-lhe toldado um pouco o racíocínio. Com mais paciência e menos impetuosidade; com mais cínismo e menos frontalidade; com mais silêncio e menos ruído - as coisas podiam e deviam ter sido diferentes.
Todos os benfiquistas têm já registado no seu código genético de benfiquistas tudo o que fez em prol do clube: o estádio, o centro de estágios, a recuperação financeira, a credibilização do clube, a recuperação das modalidades (que até já vão em catadupa às finais das provas europeias), a Benfica TV, a Fundação Benfica, a difusão do benfiquismo pelas Casas do Benfica, os 240 mil sócios.
Falta, você sabe que falta meu caro Luís Filipe Vieira, a cereja em cima do bolo: uma enorme consistência na conquista de títulos. Deixe-me arriscar este prognóstico para os próximos 10 anos do seu consulado: 6 títulos de campeão, 3 finais europeias (e as finais não se jogam, ganham-se) e 500 mil sócios. Só está nas suas mãos atingir estes objectivos.

