segunda-feira, 16 de maio de 2011

Carta aberta ao Presidente do Benfica

Fez domingo 10 anos que chegou ao Benfica. A "A Bola" fez questão de o lembrar com destaque de última página. Trazia consigo um importante cartão de visita - ter tornado um clube dos subúrbios de Lisboa num caso de sucesso na 1ª divisão, o Alverca.
Poucos teriam aceite trocar um clube em ascensão, com grande potencial, por um gigante falido, nas bocas do Mundo pelos piores motivos. Isto pode parecer uma heresia, mas é disso que estamos a falar. O Benfica era, na altura, um poço sem fundo.
Manuel Vilarinho aceitou ser candidato por vaidade pessoal. Não arriscou muito e cumpriu o sonho de uma vida. Você, não. De origens humildes, tendo subido na vida a pulso, arriscou muito ao meter-se no vulcão que era então o Benfica.
Deixe-me que lhe diga que ouvi pessoalmente Manuel Vilarinho, no antigo gabinete da Luz, dizer que não conseguia desatar os nós que todos os dias lhe apareciam. É claro que quando dizem que você foi tratar do futebol, estão ser redutores. Você foi "tratar" do clube e o futebol, digo-o sem tibiezas, foi talvez aquilo com que menos se preocupou. E fez bem. Na verdade, as prioridades eram outras.
Ocupado com outros "nós" e com Vilarinho a meter água no futebol, com o despedimento de Mourinho à cabeça das infantilidades, para não lhes chamar outra coisa, a "gestão desportiva" foi ruinosa. Mas a gestão do clube foi um sucesso.
Até que, estabilizado o clube, você se virou para o futebol. E, diga-se em abono da verdade, acertou em cheio: foi buscar um trio de sucesso Simão + Trapattoni + Veiga, a ordem é arbitrária (e claro, já tinha trazido de Alverca essa jóia da coroa que era o Pedro Mantorras).
O sucesso desportivo apareceu num ápice. Depois, uma série de peripécias, entre as quais os problemas em que se viu envolvido José Veiga e a insólita decisão de dispensar Fernando Santos à 1ª jornada, fizeram o "projecto desportivo" recuar.
Este foi, talvez, o ponto negro do seu consulado. Do qual se demorou a recompor e desde aí a ânsia legítima e justa em ver reconhecido dentro das quatro linhas todo o trabalho que fez em reerguer o clube das cinzas tem-lhe toldado um pouco o racíocínio. Com mais paciência e menos impetuosidade; com mais cínismo e menos frontalidade; com mais silêncio e menos ruído - as coisas podiam e deviam ter sido diferentes.
Todos os benfiquistas têm já registado no seu código genético de benfiquistas tudo o que fez em prol do clube: o estádio, o centro de estágios, a recuperação financeira, a credibilização do clube, a recuperação das modalidades (que até já vão em catadupa às finais das provas europeias), a Benfica TV, a Fundação Benfica, a difusão do benfiquismo pelas Casas do Benfica, os 240 mil sócios.
Falta, você sabe que falta meu caro Luís Filipe Vieira, a cereja em cima do bolo: uma enorme consistência na conquista de títulos. Deixe-me arriscar este prognóstico para os próximos 10 anos do seu consulado: 6 títulos de campeão, 3 finais europeias (e as finais não se jogam, ganham-se) e 500 mil sócios. Só está nas suas mãos atingir estes objectivos.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A revolução

Pensamento do dia (de hoje): a revolução segue o seu curso e, como ensinava Mao Tsé Tung, faz-se de pequenos passos.

terça-feira, 10 de maio de 2011

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Menos festa; mais exigência


Luís Filipe Vieira falou, como prometeu, à nação benfiquista. Uma entrevista em que se realça a forte autocrítica que o Presidente fez e onde assumiu os erros cometidos. Esta humildade, esta forte percepção que Vieira revelou de que não se podem escamotear os erros internos e esta viragem discursiva que acaba com o enfoque total e absoluto nas arbitragens mas, sem sublinhar os prejuízos que daí advieram, aponta para outros factores para justificar a péssima época.

Vieira, com esta entrevista – e ela pode ser decomposta em várias entrevistas, porque muitos assuntos foram abordados, mas vamos centrarmo-nos no futebol -, faz ele mesmo a viragem de página que o clube necessita.

O presidente do Benfica pôs, como devia, um ponto final nas querelas estéreis e menores que apenas desgastam e distraem; apelou, como devia e há muito tempo o podia ter feito, à pacificação do futebol português; mas não deixou de lançar uma palavra de esperança e de ambição.

Apostou forte em vincar as suas próprias características: genuinidade, emotividade e despojamento do poder. Reforçou, por isso, a autoridade interna e externa. Manteve Jorge Jesus, como se impunha; falou no reforço da equipa, como se impõe, também; e exigiu mais e mais, como deve tónica de um líder.

Agora, como disse Vieira, menos festa e mais trabalho e mais concentração – como aqui escrevi ontem: menos palavras e mais acção.

Um recorde inultrapassável!

Este é o fantástico Benfica de Jimmy Hagan, de 72/73: 30 jogos, 28 vitórias, 2 empates. Um registo histórico e para a História. Inultrapassável!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Uma crise, uma oportunidade

Uma enorme ressaca. Um enorme pesadelo. Um brutal murro no estômago. A dor de uma derrota, por mais violenta que seja, não nos pode impedir de olhar em frente, de continuar a caminhar em busca de um destino de sucesso, que nos legou Cosme Damião.

Já vivemos outras noites assim. Vimos, incrédulos, Eusébio isolado atirar para as mãos do guarda-redes um remate com selo de golo, falhando assim a 3ª vitória na Taça dos Campeões Europeus, contra o Manchester United, para depois sucumbir no prolongamento aos pés de George Best.

Vimos Costa Pereira sofrer um “frango” contra o Inter de Milão, noutra final histórica, depois de termos massacrado a equipa italiana que jogava no seu estádio, com apenas 10 jogadores por lesão do próprio Costa Pereira, numa altura em que não havia substituições.

Mais recentemente, sofremos a bom sofrer ao ver Veloso falhar o penalty que deu a vitória ao PSV noutra final da Taça dos Campeões Europeus. E podia ir por aqui fora, com mais alguns episódios que nos feriram a alma. Mas sempre soubemos ultrapassar as crises, fossem elas de que grau fossem.

Estamos a viver uma crise de contornos estranhos. Estranhos porque se segue a um ano de muita euforia com a conquista do título. Já aqui escrevi sobre o que correu mal na gestão da época. Dispenso-me de repetir, os textos aqui estão para consulta.

Agora é tempo de olhar em frente. O Presidente do Benfica disse que falava na 2ª feira aos benfiquistas. Será uma autêntica comunicação ao país. Até lá, Vieira saberá, da maneira mais difícil, que o poder é solitário e as decisões mais decisivas dos líderes têm de ser reflectidas, pensadas e concretizadas a sós.

Luís Filipe Vieira não precisa dos conselhos de ninguém. Cada um dos benfiquistas poderia elencar uma lista de coisas a mudar no interior do Benfica. E cada um dos benfiquistas acertaria numa que fosse.

Vieira sabe onde está o mal e este é o momento para o cortar pela raiz. Numa comparação talvez algo desfasada, o Benfica deve fazer já o seu trabalho de casa e não esperar pela entrada de nenhuma troika para arrumar a casa.

Como Portugal, o Benfica precisa de se reestruturar de alto a baixo. Vieira não precisa da troika para fazer isso, porque todos sabemos o que ele fez para ultrapassar os desmandos de Vale e Azevedo.

Agora, é preciso, porém, ir mais fundo e mais longe. É preciso ir à chamada “estrutura” e rever procedimentos, estratégias, funções. É preciso dotar o Benfica de uma “estrutura” que se preocupe mais com o Benfica do que com os adversários; que encontre soluções para os problemas e não que crie e alimente mais os problemas; que seja solidária e eficaz; que cada um saiba as suas funções e não as extrapole para além dos limites.

Uma “estrutura” vertical e não horizontal. No cume e no vértice, Luís Filipe Vieira. Depois mais 3/4 homens de total e absoluta confiança em lugares chave – um está identificado, Domingos Soares Oliveira. Os restantes, Vieira saberá quem são.

Acima de tudo, uma preocupação: o futebol. Esta época teve um erro histórico – desgaste com guerras menores. Hoje, percebe-se melhor que gerir a comunicação em tempo de sucesso é uma coisa, em alturas de crise é outra.

Nesta área, o Benfica perdeu-se. Agora há que planear e organizar. Olhar para dentro e cerrar fileiras. Reconhecer os erros e caminhar em frente. Importante: não repetir os erros. O Benfica é um gigante e, por isso, mais difícil de gerir.

Mas tem uma massa adepta imensa e que não deixará de estar presente mesmo nos momentos mais difíceis. Depois do terramoto de Lisboa em 1755, o Marquês de Pombal disse uma frase célebre: “É tempo de enterrar os mortos e cuidar dos vivos”.

Esta época vai deixar muita gente para trás. Paciência. Há que, como em 1755, reconstruir a “cidade”. E Lisboa, depois da reconstrução, ficou uma cidade muito mais bem ordenada e muito mais bonita.

Post-Scriptum: Nesta “reconstrução” há um nome fundamental a defender, preservar e manter – Fábio Coentrão. Ele pode e deve ser o farol do Benfica do futuro.



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