quinta-feira, 8 de março de 2007

Super morcões

No estádio do FC Porto a claque dos Super Dragões assobiou o minuto de silêncio em homenagem a Bento, que foi guarda-redes do Benfica. Eu repito: no estádio do FC Porto, a claque dos Super Dragões assobiou o minuto de silêncio em homenagem a Bento, que foi guarda-redes do Benfica. Eu repito: no estádio do FC Porto, a claque dos Super Dragões assobiou o minuto de silêncio em homenagem a Bento, que foi guarda-redes do Benfica. Ele há coisas que têm de ser repetidas.
O FC Porto teve um guarda-redes chamado Barrigana. Nunca o vi jogar, mas o meu pai falava-me dele, mãos fortes, cara de homem. O Bento, esse, já era um rapaz do meu tempo. Pela selecção, parando Platini e os outros, numa semifinal europeia, ele esteve quase a fazer-me grande. Falhei por um niquinho, um minuto: o 119º, num jogo prolongado até aos 120 minutos.
Bento até era do meu clube mas mesmo que não fosse era dos meus. Eu sou agradecido, gosto de quem me torna feliz. Ele voou duas vezes
à trave, adiou a alegria francesa e prolongou a minha. Duas vezes nas alturas, ele que era mais baixo que eu! Se tivesse tido a vontade de Manuel Galrinho Bento, podia ter sido eu, naquela tarde de Junho de 1984, no Vélodrome, em Marselha, a voar para as bolas de Platini e Tigana. Não foi Deus ou o ADN que me impediram – nada ou quase nada impede no futebol, só o nosso querer. Está bem, ser Maradona ou Cristiano Ronaldo não é para todos. Mas Bento eu podia ter sido e, naquela tarde, eu quis sê-lo, muito.
Não se pense que identificar-me com o herói lhe tira brilho. Os Pelés e Eusébios têm estatuto de Jeová, a quem até a representação devia ser interdita. Já Bento, tivesse eu aquela bigodaça e as ganas que ela denuncia, Bento, um tipo normal, excepto não querer sê-lo, eu podia ter sido. Por isso futebolistas como Bento são a essência do mais popular dos desportos, dão-nos a ilusão de termos passado uma tangente à glória.
Um dia, li uma crónica em que António Lobo Antunes falava de Barrigana. Pousei a crónica, lembrei-me do meu pai. No camião Bedford, onde me lembro sempre dele, rompendo picadas no Norte de Angola, o meu pai conta-me que veio à Europa para casar, mandou fazer um fato branco e encontrou o seu clube em crise. Em plena II Guerra Mundial, o FC Porto perdera Andrasik, o húngaro que desapareceu talvez por ser antinazi. O meu pai foi ao velho campo da Constituição ver o substituto, Frederico Barrigana. Mãos fortes, cara de homem e uma tristeza fatal: viveu na mesma época de um deus, Azevedo. Continuou com a cara de homem e foi a tranquilidade dos portistas por mais de uma década. Entretanto, o Bedford atravessava a minha infância e eu guardava um nome de alguém que nunca vi. Barrigana.
No outro dia eu devia ter estado no meio da claque dos Super Dragões que insultava o nome de Bento. Evidentemente, eu não estaria a assobiar, estaria com um sorriso nos lábios. Talvez alguém me perguntasse porque sorria. E eu diria: “Estou a lembrar-me de Barrigana, um tipo com cara de homem”. E o superdragão perguntaria, confuso”: Qu’é que o Barrigana é práqui chamado?”. E eu diria: “Os tipos com cara de homem fazem-me lembrar os tipos com bigodaça”. Mas, isso, um tipo das claques não podia entender, é uma coisa só para quem teve pai.

Ferreira Fernandes
Jornalista

in revista “Sábado”, de 8 de Março de 2007

4 comentários:

  1. O que é que o Bento fez assim de tão especial por Portugal para um minuto de silêncio. Era apenas um jogador de futebol.

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  2. João Malheiro08 março, 2007 19:09

    É por causa destes artigos de idiotas de Lisboa que começo a achar que a claque do FCPorto até nem agiu assim tão mal.

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  3. No estádio nacional, corria o ano de 1996, 1 adepto da claque benfiquista atirou 1 very-light em direcção à bancada onde estavam os adeptos do Sporting…resultado: 1 adepto do Sporting morto…
    Eu repito no estádio nacional, corria o ano de 1996, 1 adepto da claque benfiquista atirou 1 very-light em direcção à bancada onde estavam os adeptos do Sporting…resultado: 1 adepto do Sporting morto…
    E volto a repetir no estádio nacional, corria o ano de 1996, 1 adepto da claque benfiquista atirou 1 very-light em direcção à bancada onde estavam os adeptos do Sporting…resultado: 1 adepto do Sporting morto…
    E agora pergunto: o k é pior, assobiar alguém ou matar alguém?!?
    Mais 1 vez, o autor deste blog não responderá a esta questão…enfim, é akilo a k se chama facciosismo doentio!!!!!!!

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  4. Quem não respeita ... Não é de respeitar ...
    As coisas, situações e pessoas têm a importância que lhes queremos dar ... Fazer um post a falar sobre MORCÕES é dar-lhe uma importância que definitivamente eles não têm ... aliás tentam consegui-la com atitudes como a que tiveram ...
    "Vitor Baia ... podes partir à vontade ... da minha parte terás o respeito que a ocasião merece..."

    Para ti Manuel Galguirnho ... no silêncio e na homenagem que te prestei tiveste um MUITO OBRIGADO pelas alegrias e pelas lições de dignidade ... ATÉ SEMPRE HOMEM DO BIGODE

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